Saturday, August 28, 2010

Fui até Londres para ver Black Angels

Porque Black Angels é bacana, Black Angels é legal. Banda honesta, gente bonita. Veja só a foto. Black Angels é supimpa. Ô banda boa essa, Black Angels. Viva o Black Angels!
Então, semana retrasada fui até Londres. Fazer o quê? Ver Black Angels, claro. Black Angels. Repetindo: fui ver show dos Black Angels em Londres.

Cof, cof. Ham. Só que....um dia bem disse Carlos Drummond de Andrade: no meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho. No meio do caminho tinha um show do Mark Lanegan, tinha um show do Mark Lanegan no meio do caminho. Essas coincidências curiosas e inesperadas da vida. O aguardadíssimo show do Black Angels estava marcado para o último dia 26. Lanegan, dia 18. Por acaso eu chegaria em Londres no dia 17. Para ter uma semana de preparação psicológica para ver quem? Black Angels, ué, quem mais? Também por acaso eu não teria compromissos na cidade, na noite do dia 18. Custava dar uma passada no Lanegan? Não, né. E já que horas antes do show eu estava em uma livraria, para comprar esse livro para mim, por que não comprar também um para ele? E depois do show pedir para alguém entregar. Não eu, óbvio.

E lá fui eu então para o lugar do show. Já falei aqui da Union Chapel, a igreja mais cool do mundo, que fica no norte de Londres. É anglicana, construída no século XIX, era vitoriana, estilo gótico. Hoje, a Union Chapel é uma casa para shows de música. Incluindo rock. E continua a ser igreja! Com casamentos, batizados, velórios, etc.. No site da UC, a gente acha tanto a programação dos shows como o horário das missas. Adornada por vitrais e arcos, pé direito nas alturas, a igreja é absurdamente linda. Acústica perfeita. Parece até que foi projetada especialmente para o vozeirão do Lanegan.

Sentei no banco da segunda fila. Os bancos da plateia são os próprios bancos usados pelos fiéis para rezar. Lanegão, como sempre, não decepcionou. O bacana desses shows semi-acústicos é que eles exigem muito mais do Mark. Não tem uma maçaroca de sons por trás, como em apresentações com banda completa, para encobrir o vocal, disfarçar falhas, errinhos. Então ele é obrigado a modular a voz, a dar uma dose de interpretação para cada música, a acertar o passo com a guitarra do Dave Rosser. Mas ele honrou aquelas paredes seculares de pedra, tornando o ambiente ainda mais etéreo e sagrado. E de quebra ainda presenteou os fãs do grunge com umas três músicas do Screaming Trees.
Fim do show. Pessoas levantando e saindo da igreja. Olhei para trás. Na quarta fila, uma cara conhecida. Ora, ora. Isobel Campbell. Entendi então porque o Lanegan, no meio do show, agradeceu a presença de uma plateia especial. Acabou de sair o terceiro disco que o Mark gravou com a escocesa Isobel. Músicas dela, os dois cantando. Engraçado. Ninguém reparou que era ela lá. Não que as pessoas ficassem olhando, cochichando e não se aproximassem. Não era isso. Dava para ver que a cantora não estava sendo reconhecida. Ela é mais alta do que eu imaginava - e menos gorda do que eu pensava. Dona de um cabelo loiro comprido e brilhante tão, mas tão bonito....que é feio, he. Porque não parece de verdade. Lembra aquelas cabeleiras criadas por computação gráfica, melhorando os cabelos reais das atrizes, nos comerciais de shampoo L'Oreal. Um cabelo de pixels, não de queratina. Ah, isso sem falar do bofe-acessório que a acompanhava. Espera, pára tudo um minuto! Aqui vai um alerta para você, indie nerd de óculos, papete, barbudo e bolsa a tiracolo, que sempre teve a Isobel como sua garota nerd ideal. Você, que sempre pensou que Isobelzinha era como a menina fofa da sua sala da PUC. Aquela que não se misturava com os playboys nem com os fortões metidos do time de basquete. Aquela gracinha que olharia para um...feio apagadinho. Como você. Sorry explodir seu sonho mais lindo. Mas não é ela. Quem tá pegando a Isobel é um metrossexual que lembra o marido engomado da Nicole Kidman. Que veste camisa passada, não camiseta desbotada do Sonic Youth. Pinta de executivo de gravadora. Pronto, ilusão desfeita. Pode arranjar outra musa, tá.
Voltando ao Lanegan. Bom, enquanto as pessoas saíam, eu continuei sentada. Olhando para a saída ao lado do palco. Ano passado, na noite dessa foto, ele saiu de lá, da porta atrás da gente. Uma funcionária de igreja montava guarda no lugar. Isobel foi falar com ela. Aí sim, alguém finalmente se ligou e a reconheceu. "Ai, como você é bonita! Pode entrar!". E nada do Lanegan aparecer. Até que eu ouvi uma voz feminina. Sentada na fila de trás, uma moça loira, de franjinha, faixa amarrada no cabelo. Sorriso aberto. Simpática, perguntou em inglês. "Tá esperando por ele?". "É, estou. Viu a Isobel lá na frente?". "Não, nem reparei. Eu sempre venho ver os shows dele em Londres, já até perdi a conta". "Ah, eu te entendo. Sou brasileira". "Legal! E eu sempre tento falar com ele depois dos shows. " Eu ri. "Que bom. Pensava que a única fã demente era eu". A menina se animou, deslizou do banco de trás, sentou do meu lado. "Meus amigos não gostam das músicas que eu curto. Nem meu marido. Então venho sozinha aos shows dele. Eu moro em Bristol!". Bacana. Terra do trip-hop. Massive Attack, Portishead. Aí apareceu um segurança. Gentilmente pediu que nós saíssemos, para a igreja ser fechada. Fazer o quê, né? Expulsa de uma propriedade do Senhor. Me senti a própria Eva. Aí a inglesa colou em mim. "Escuta, você já vai....assim....embora de vez?". "Humm...por....que?". "Por que se você não tiver nada pra fazer....a gente poderia esperar por ele lá fora, né. Juntas.". Ai. Meu. Deus. Pra quê, hein? Juro que eu estava pensando seriamente em entregar o livro para a tal funcionária, pedir pra ela passar para o Lanegan, ir embora para o hotel. Eu estava sinceramente fazendo força para conter meus impulsos. Mas se sozinha já não tenho muita força de vontade para acionar o simancol e pisar nos meus freios inibitórios....com o respaldo de uma versão minha, made in England,...eu seria praticamente uma perua desgovernada, hehe. Por que essa doida tinha que puxar papo justo comigo? Aí eu me lembrei do Rafael. Já falei dele aqui. Meu melhor amigo nos tempos de Largo São Francisco. Não era uma pessoa muito popular e querida. Aliás, nada popular e querida. Um dia comentei com ele: "Sabe Rafael, todo mundo me pergunta porque uma pessoa boa como eu vive grudada em um traste como você. Nunca sei o que responder". "Simples, Aninha. É atávico. Aprende: cachorro cheira cu de cachorro.". Eu nunca me esqueci dessa frase fina. E ela acendeu como um raio na minha memória quando a Lisa - esse é o nome dela - veio com a proposta de união dos nossos esforços stalkers. Putz, e o pior é que eu me dei (muito) bem com ela. Pudera, foram duas horas conversando sobre nosso assunto preferido. Nunca compreendi tanto o idioma inglês, fiquei espantada comigo. Mas também, se é pra fofocar sobre o Lanegan, eu me viraria até em etrusco.
Então na porta da frente da igreja, a gente começou a vigília. Lisa contou que é atriz de teatro. Com uma curiosidade: ela participou, como figurante, do vídeo de "Revival", música do Soulsavers com vocal do Lanegan. Vendo o vídeo, lá pelos 3min30seg, ela aparece do lado direito da tela. É a loira fanática religiosa que diz "yes", hehe. Funny. "Que legal! E você contou pro Lanegan que apareceu no vídeo?". "Não. Eu sempre fico nervosa na frente dele e esqueço o que tinha programado falar". "Como eu. Com a desvantagem de que eu tenho que pensar em português pra depois traduzir e falar em inglês.". "Mas tem uma coisa que eu quero perguntar pra ele. Se o Soulsavers vai acabar. Porque depois do último show do Soulsavers em Londres eu falei com um dos caras da banda. Ele disse que iria terminar tudo. Fiquei arrasada. Só que meses depois veio a notícia da gravação de um novo CD. Acho então que ele me enganou!". Aí a Lisa teve a ideia. "Bom, a Isobel pelo jeito ainda está lá dentro. Talvez eles estejam no bar da igreja! O bar ainda tá aberto, tem luz nesse corredor da frente. Vamos lá!". Sim, porque a Union Chapel, além de tudo, tem um bar dentro. Inglaterra, eu amo você.
Subimos até o bar. Luz baixa, um casal em uma mesa dando uns amassos nada castos, só gente desconhecida. Lisa comprou uma taça de vinho branco. "A Isobel estava sentada na quarta fila durante o show?" "Estava", eu disse. "Sei. Já tinha ouvido uns rumores de que a quarta fila era para os convidados especiais. Aposto que ainda estão todos dentro da igreja". Outra vez, o segurança. Avisou que o bar fecharia em cinco minutos. Mas que a Lisa poderia continuar a beber lá fora. Voltamos para a rua. Deus me expulsando de novo, que coisa. Podia expulsar também o Lanegan, puxa. Preciso de um Adão, hehe. "Você entendeu o que o segurança disse?". Pergunta bizarra. Porque quem fez foi ela, não eu. "Olha, você não sabe com que alegria, alívio e consolo eu tomo conhecimento de que nem um inglês entende o que outro inglês fala. Valeu, Lisa". "Tá bom, de nada. Mas o que eu quero saber é: ele disse que o bar fecharia "em" cinco minutos ou "por" cinco minutos?". "Em". "Não, não, não. Ele disse POR cinco minutos.". Eu gosto de gente que não se deixa levar pela opinião alheia. "Tá. Por. E por que o bar fecharia "por" cinco minutos?". "Simples! Para rolar uma festa no bar! Para o Lanegan e seus convidados especiais!", explicou uma Lisa com ar triunfante. Foi aí que as minhas sinapses deram um nó. Como assim? Uma festa que duraria....só cinco minutos!? Bem feito. Quem mandou ser desatualizada. Vai ver que é uma nova moda gringa. Não existem aqueles movimentos flash mob, em que uns bocós se reúnem do nada, fazem alguma coisa imbecil - tipo deitar no meio da rua - e logo depois se dispersam e vão embora? Vai ver que inventaram as flash parties e eu não tô sabendo. Meu, que espécie de som rola numa festa de cinco minutos? Meia música do Pink Floyd? Um disco inteiro dos Ramones? Fiquei com vergonha de perguntar para ela, tirar um sarro. Sei lá, não quis parecer rude e - principalmente - caipira. "Certo. Então....a gente espera a festa acabar, ele sair...e dá o bote?". "Não, Ana. Convence o segurança a deixar a gente entrar na festa!". Puta que pariu. Que complexo. Usar meu poder de persuasão em o quê...um minuto....pra pegar a festa bombando no auge do terceiro minuto!? E o que eu falaria para o leão-de-chácara? Quero entrar, é meu direito, não existem penetras na Casa de Deus. Ou o senhor acha que quando os reis magos foram visitar Jesus na manjedoura foram barrados na porta por uma hostess, por não terem nome na lista?
Bom, esperamos do lado de fora. "Sabe, Lisa, eu acho que o Lanegan deveria criar um cartão fidelidade. Para fãs como nós. Tipo cartão de milhagem aérea, tipo o cartão da farmácia Boots". (a Droga Raia dos gringos). "Definitely!". "Porque aí com o cartão fidelidade a gente poderia conseguir descontos nos preços dos ingressos...". "Definitely!". ".....lugares reservados na plateia...". "Definitely!". "....CDs autografados...". "Definitely!". "...ou qualquer outro bônus que o Mark por bem quisesse nos proporcionar, hehe...". "Definitely!!". Eu gosto de gente que se deixa levar pela opinião alheia.

Meia hora depois - ou seis festas depois - nós duas na rua. Na frente do portão que levava ao bar. Trancado. Luzes apagadas. "É, você estava certa. Ele tinha dito "em" cinco minutos, não "por"". "É Lisa, mas veja o lado bom: a igreja te doou essa taça de vidro. Prova de que, se estão doando, é porque não estão passando necessidades". "Gosh, que droga. E agora? O que a gente faz? Dá outra volta no quarteirão pra ver se a van da turnê tá parada nos fundos?". A gente já tinha dado umas três voltas pelo quarteirão. Que é comprido. Olhei desolada para a avenida que se estende na frente da igreja. Foi quando eu vi! "Lisa!! Lá, no pub do outro lado da rua!". "Ele!?". "Não! Ela! A Isobel!". "Cadê?". "Sentada naquela mesa, perto da porta do pub!". "Não tô vendo!". "Lá! Aquele troço amarelão!". "Ah, vi! Vamos lá perguntar pra ela onde ele está!". "Perguntar nada, vamos é procurar ele lá dentro!". E nós duas saímos correndo feito aqueles touros enlouquecidos nas festas espanholas de São Firmino, em Pamplona. Para chegar ao pub, havia a avenida para atravessar primeiro. Sendo uma rua de Londres, a mão é invertida. Eu sempre me confundo para atravessar as ruas de lá. Então, para evitar um atropelamento, adotei o método seguro que minha cachorra me ensinou. Quando a Belle quer entrar na varandinha aqui de casa, primeiro ela pára na porta. Olha para a frente. Depois olha para a esquerda. E então para a direita. Por fim, olha para cima. Porque, afinal de contas, nunca se sabe. Só aí que ela sai (após dezesseis anos, ela ainda não se convenceu de que não passam carros no terraço do apartamento). Atravessada a avenida, a gente correu até a porta do pub, tirando finas das costas de uma Isobel sentada na área externa em um banco tipo de piquenique, quase derrubando a mulher. Passamos um pente fino dentro do local. Nada do Lanegan, só uns bêbados tristes. Saímos. "E agora? A gente pergunta para a Isobel? Dá o livro para ela entregar para ele.". "Ah, não. É chato incomodar. E tenho vergonha de perguntar e pedir.". "Vergonha de perguntar? Mas você não é promotora de justiça, hehe?". Pois é. Na verdade, não era vergonha. É que eu não teria nada de bom para falar pra Isobel Campbell. Falar o quê? "Oi, desculpa incomodar. Não quero seu autógrafo, nem foto, acho suas músicas meio chatas. Só compro seus CDs por causa do Lanegan. Então, não quero nada de você, só que me faça o favor de dar pra ele esse livro. A propósito: essa sua saia de vó é pavorosa. Te envelhece, livre-se dela. Marca sua calcinha. Que, pelo tamanho, deve ter pertencido ao enxoval da rainha Vitória. Tchau". Não ia dar certo.

Ideia de jerico minha, ir até o pub. Lógico que o Lanegan não estaria junto da Isobel. Não consigo imaginar ele de camaradagem com aquele coxinha pó-de-arroz acompanhante da cantora. Lanegan não se sentaria na mesma mesa de um cara que come batatinha usando palitos para não engordurar os dedos.

Voltamos então para nosso observatório, na frente da igreja. "Você já reparou que o cabelo dele cresce para os lados?". "Já. Como capacete, né, hehe. E você já notou que ele usa sempre a mesma roupa? Já até dei uma camisa pra ele. Tipo indireta pra ele mudar de figurino. Mas ele continua a usar a mesma calça, camisa e camiseta. Bom, pelo menos ele é um quarentão digno. Não tenta parecer um rapazinho de vinte, como por exemplo o Chris Cornell do Soundgarden, todo recauchutado.". "Qual a idade dele?", quis saber a Lisa. "Humm...quarenta e cinco...ele é de 64, fim do ano.". "Ah, dois anos mais moço do que a minha irmã caçula!". Aí eu fiz essa cara que você está fazendo agora. Tá, eu já tinha reparado que a Lisa era mais velha do que eu. Só que eu dei um desconto. Explico: na Inglaterra, não existem mulheres da minha faixa etária, trinta anos. Elas pulam dos vinte e nove diretamente para os quarenta e cinco anos, no mínimo. A razão? As inglesas bebem muito, muito mesmo. Como uns estivadores de porto. Desde a adolescência. No fim dos vinte anos, o corpo delas já não aguenta mais. Tá embuchado e enrugado. Os homens também bebem, mas são um pouco mais resistentes. Os sinais de envelhecimento aparecem depois dos quarenta. Então, a Inglaterra é um país de velhinhos feios (embora tenha jovens bonitos, sim). Sério, todas as senhoras têm a mesma cara. A da Camilla Parker Bowles. E os maridos delas são cópias do príncipe Charles. Um exército de clones. É estranhíssimo. Por isso, quando olhei para a Lisa pela primeira vez, imaginei que ela tivesse por volta da minha idade, trinta e cinco, já que aparentava uns cinco, dez anos a mais. Ela tem cinquenta. E está muito bem! Estou elogiando. Que exemplo para mim. Cinquenta anos, e ainda tietando. Beleza, ainda tenho quinze anos pela frente.

"Lisa, você já pensou numa coisa? Que se o Lanegan fosse muito mais famoso do que é, a gente nunca teria conseguido chegar perto dele depois dos shows?". "Já". Aí ela disse um troço no qual eu nunca tinha pensado. "Ele conseguiu um equilíbrio perfeito. Porque ele não é muito, muito conhecido. Mas também não é desconhecido. Ele pode andar na rua sem ser perturbado, manter uma base fiel de fãs, viver às custas da própria música, sem luxo, mas com razoável conforto. Enfim, ele conseguiu aquilo que o Kurt Cobain queria desesperadamente no fim da vida, mas não alcançou. Paz.". Interessante. Ela tem razão. Aliás, houve um tempo em que eu achava que, caso Kurt Cobain não tivesse se matado, ele teria acabado com o Nirvana e trabalhado junto com o Lanegan em algum projeto, já que os dois eram muito ligados. Mas depois percebi que não. Acho que se o Kurt e o Layne Staley não tivessem morrido...o morto seria o Lanegan. Porque o Mark, a duras penas, largou as drogas de tão abalado que ficou com a morte dos amigos. Tem uma tatuagem no pulso do Lanegan que talvez seja uma referência a isso. A palavra "surrender" sobre uma data. Cinco de abril de 2005. Exatos onze anos depois da morte do Kurt Cobain, e três da do Staley, vocalista do Alice in Chains. O que será que aconteceu nessa data? Talvez o dia em que Mark Lanegan decidiu sobreviver. E que triste pensar que dois caras talentosos precisaram morrer...para que um outro cara talentoso continuasse vivo.

"Lisa, vou desitir. Ele já deve ter ido embora mesmo. O show acabou faz um tempão. Só tá a gente aqui.". "É, né. Vamos então dar uma última olhada na rua dos fundos. Só por desencargo". Andamos, viramos a esquina. E não é que....tinha uma van parada quase na frente de uma porta da igreja -aberta! Van com a inscrição "tour" no capô! Uma mocinha estava junto à porta. "Ele tá aí dentro?!". Ela riu. "Tá. Sai em cinco minutos.". A gente se abraçou do lado esquerdo da porta. A moça sumiu. Logo depois, finalmente, aparece Mark Lanegan. Virou para direita. Ahá, caiu na rede! Pelo seguinte: o motorista parou a van com as duas rodas esquerdas sobre a calçada (lembrar que é mão inglesa, invertida). Isso porque a rua já é estreita para a passagem de carros. Acontece que a calçada também é estreita. Então o retrovisor esquerdo quase encostou no muro de pedra da igreja. O Lanegan se enfiou nesse corredorzinho formado entre muro e lateral da van, para lá na frente abrir a porta do passageiro (posição invertida nos carros ingleses). Só que a Lisa entrou no corredor logo atrás dele. E eu atrás dela. Quando ele se virou....estava preso, hehe. Muro de um lado, van do outro, retrovisor tapando a passagem. E uma Lisa salivante na frente dele. O único jeito do homem escapar seria entrando na van. Mas para isso ele teria que sair da frente da porta para conseguir abri-la. Impossível. Só se subisse na cabeça da Lisa. Moleza atacar uma presa indefesa em uma rua escura e deserta de Londres. Jack, o Estripador, não teria feito melhor.

Isso, agora quero ver você fugir do mesmo jeito que fez depois do show em São Paulo, saindo correndo pela direita do palco como o Leão da Montanha. No exit. Game over.

Ele olhou para Lisa...."ah....você". Olhou para mim...."e...você?". Pô, precisava me reconhecer tão rápido? Afinal, eu mudei a cor do cabelo, repiquei. Tá quase preto, como a asa da graúna. Bah, nem reparou então. Homem é tudo igual mesmo. Aí eu não resisti. Fiz uma pequena maldade: "É. Agora a gente é amiga!". Arregalei o olho e abri meu sorriso mais psicótico. E ele olhou para nós duas do mesmo jeito que a pelada do chuveiro um dia olhou para Norman Bates. Eu quase me envergonhei. Quase. Logo passou. "Oi. Você tá bem?" "Estou. E você?". Jesus, que educação. Ele perguntando se eu estou bem. Se eu fosse menos tímida - ou menos sóbria - já teria soltado um "agora estou muuuiito melhor!". Entreguei o livro, ele agradeceu. Dentro, na primeira página, escrevi uma dedicatória. Fiz força para assinar com letra bonita. Ana Luisa, your official Brazilian stalker. "Parabéns pelo show. Foi lindo. Como sempre.". Senti uma leve demonstração de comoção depois do meu "as always". Leve - porque ele é um cara de reações extremamente contidas. Mas acho que vi uma breve expressão de felicidade. E aí a Lisa desembestou a contar a tal história do cara do Soulsavers que teria dito que a banda acabaria. O coitado lá, prensado, escutando tudo com atenção. Ela fala pelos cotovelos. Ele praticamente encolhendo a barriga para não encostar na doida. Eu com uma puta vontade de rir. Acho que ela estava mesmo indignada pensando que pudesse ter sido vítima de um trote. No final, quando ela deixou ele falar, a informação: "Olha, eu não tô sabendo nada dessa história da banda acabar". Lisa pareceu satisfeita, estendeu a mão para cumprimentá-lo e ir embora. Dada a distância, dei um mero tchauzinho com os dedos. Agora chega, né. Ficar mais tempo lá seria passar dos limites da chatice. Lentamente comecei a dar marcha-ré para sair daquele aperto tomando o cuidado de não encostar na van empoeirada a barra do meu vestido (er...vestido da minha irmã. Que será clandestinamente devolvido lavado e passado ao cabide do qual foi surrupiado. Não se preocupe, Marina, você nunca vai saber.). E a Lisa desatou a falar de novo, lembrando de algum outro assunto digno de discussão à meia-noite, com um cara visivelmente cansado. Foi quando....peralá, por que ele tá...me olhando....assim? E por que tá...levantando, esticando, desviando o bração - cuidado com a orelha da Lisa! - com essa mão aberta!? Quando eu vi aquela mão gigante suspensa, pairando na altura do meu nariz, esperando minha mão anã....engatei primeira e voltei para onde antes eu estava. Na velocidade da luz. Tá aqui minha mão. Pode levar o braço também. E todo o resto, hehe! Brincadeira, não disse isso. Só encaixei a mão na dele. Ele pegou meus dedos de um jeito que parecia estar me tirando para dançar valsa. Ergueu ainda mais minha mão. E baixou a cabeça, fazendo uma pequena mesura. Tudo com a expressão mais séria do planeta. E eu abri meu sorriso mais "ai, que fofo!". Ei, menino, diz pra mim, vai, com quem você aprendeu esses modos de lorde que viveu no século retrasado? Algum avô? Porque com os irmãos Van Conner ou com o Josh Homme é que não deve ter sido, né? Ow, man, keep on rockin', OK? Por gente como eu. Por você mesmo. Não deixe nunca mais que aquela escuridão que engoliu seus amigos engula você também. No que eu puder ajudar, eu ajudo, prometo. Se eu sempre tiver que te dizer que tudo o que você faz é lindo, eu passo o resto da vida te lembrando, sem problemas. Mas eu preciso de você vivo. Nesse mundo. Então não me deixe aqui sozinha. Combinado?

Fim do cativeiro, a gente libertou o preso, se despediu de vez. Lisa ia pegar um táxi, eu ia para o metrô. Nos abraçamos no meio da rua, ela quase me enforcando, toda feliz. Trocamos emails e ficamos de combinar....outras vezes, hehe. A van passou rápido pela gente. Deu tempo de ver um I-Pad sendo ligado no colo dele, sobre o livro. E cada uma seguiu seu caminho, rindo.
Nem acredito. Já posso espalhar para Deus e o mundo que Mark Lanegan pediu minha mão, na porta de uma igreja! Tudo bem que seria mais legal se ele tivesse pedido a mão nos dois sentidos: literal e figurado. E que tivesse sido na porta da frente, nas escadas. Não na saída de serviço. Mas isso são só detalhes. Detalhes tão pequenos de nós dois, como diria o Rei Roberto. Eles não interferem na poesia do gesto.
E quem diria....e tudo isso aconteceu...por acaso! Afinal, como eu já disse, eu estava em Londres para ver os sensacionais Black Horses!
Horses?
Não, Horses não. Sorry. Angels. Black Angels. Fui até Londres só para ver Black Angels.

Thursday, August 05, 2010

William Faulkner Lectures Get Digitized for the Internet :: Books :: News :: Paste


Horas e horas de aulas de Literatura (e de vida) com o melhor professor! Palestras de Faulkner na Universidade de Virginia! Em áudio e - graças a Deus - texto!


Tuesday, August 03, 2010

Quando a Arte vira Rock, Parte CL



"Portrait of Bodhan Filipowski", 1928, de Stanislaw Ignacy Witkiewicz (Witkacy) e o cantor Nick Cave.