Thursday, April 30, 2009

Thursday, April 23, 2009

Quando a Arte vira Rock, Parte CXL



"Neptuno" (detalhe), de Bartolomeo Ammannati, e Tim Wheeler, vocalista e guitarrista do Ash.
Para a Anna.
(Daniel, já reparou que o Tim Wheeler é a sua cara, hehe?)

Sunday, April 19, 2009

Rob Fleming X Steven Stelfox




Literatura indie. Quem é o personagem herói de dez entre dez fãs de Radiohead, PJ Harvey ou Teenage Fanclub? O nerd Rob Fleming, criado pelo britânico Nick Hornby para protagonizar o livro "High Fidelity", de 1995. Londrino, na faixa dos trinta anos, dono de uma modesta lojinha de discos, Rob era o camarada "gente como a gente" que ganhava pouco, sofria com a indiferença da ex-namorada, listava as melhores canções, álbuns e filmes de sua existência. E vivia para a Música, sua paixão.

E em 2008, eis que finalmente aparece o vilão! Invenção do escocês John Niven, o autor do hilário livro "Kill Your Friends". Steven Stelfox tem vinte e sete anos na Londres de 1997. Tony Blair no comando, Spice Girls no auge, morte da princesa Diana, "OK Computer" assombrando o mundo e o Britpop ainda em plena forma. Da mesma maneira que Rob Fleming, Stelfox ganha a vida graças ao comércio de Música. Só que as semelhanças começam e terminam aí. Stelfox lucra rios de dinheiro, que gasta em baladas milionárias, cocaína e mulheres. Despreza todo e qualquer ser humano, é dissimulado, sarcástico, manipulador. Assassino. E deixa bem claro: Música tem uma única função. Vender e render. "I don't care which genre something comes from - rock, trance, hip hop, Bulgarian fucking heavy metal - as long as it's profitable".

Na história de John Niven, o espertalhão Stelfox é executivo de uma gravadora fictícia, poucos anos antes da revolução on line (quando o Napster - programa então ilegal de compartilhamento de música pela web - decretou o começo do fim da hegemonia da indústria fonográfica). Steven é um A&R: Artiste & Repertoire. Ou seja, o sujeito encarregado de encontrar, desenvolver novos talentos e fechar contratos. Stelfox odeia o trabalho. Mas finge que adora. Mente para clientes, para os chefes e colegas, para os músicos que adula. E a graça do livro se sustenta justamente na ironia sem papas na língua do psicótico personagem: misturando artistas e bandas de verdade com gente inventada, sobra para todo mundo. Stelfox detona os peixes grandes do mainstream: "Madonna, Bono, the Spice Girls, Noel Gallagher, Kylie...do you really think any of that lot are talented? Don't make me fucking laugh. What they are is ambitious. This is where the big money is. Fuck talent. Forget Rock and Roll, if he'd just turned the other way out of the schoolyard Bono could have been a very successful CEO of a huge armaments manufacturer". Se leu o livro, Geri Halliwell, Spice Girl nos anos 90, deve ter adorado esse trecho: "In return for her fifteen minutes I guarantee you that Geri Halliwell would have risen at the crack of dawn every morning for a year and swum naked through a river of shark-infested, HIV-positive semen - cutting the throats of children, OAPs and cancer patients and throwing them behind her as she went - just to be allowed to do a sixty-second regional radio interview".
E se os grandes são espezinhados, Stelfox destrói de vez as pretensões de bandas alternativas, que ele detesta contratar: "The indie kids figure that (...), just as they were influenced by someone - The Velvet Underground, Jonathan Richman, the Stooges, whoever - then, in the future, young bands will be influenced by them. Maybe so. Maybe a few thousand malnourished cockless freaks scattered around the globe will give a shit. So what? Real people don't care, do they? Real people put stone cladding and UPVC double-glazing on their council houses, they buy four albums a year and they want to be able to hear all the words. And there are fucking billions of them". Entendeu, Rob Fleming?
Stelfox mete o pau não somente nas pessoas, mas também nos eventos relacionados a música. Premiações televisionadas, como o Brit Awards? Um tédio, mas grande oportunidade para conseguir droga na banheiro. Festivais de rock? Quando perguntado por uma banda iniciante sobre como seria a "vibe" do Glastonbury, Steve mente: "Oh, Glastonbury? It's just the most incredible...atmosphere". E depois ironiza para o leitor: "If you reckon that the atmosphere in medieval England - plague, filth, disease and billions of mud-spattered tolers everywhere - would qualify as incredible, then Glastonbury is indeed incredible". E é no backstage de um show que Stelfox cruza com Deborah Harry: "Debbie Harry from Blondie walks by, dressed head to foot in crimson - topped off with a bunch of red roses for a hat. She looks shocking, like an old hooker who's fallen on hard times and gone crazy". Fino e educado.
Olha, não tenho muito o que dizer sobre o livro. Por um simples motivo: não dá, só lendo. São 324 páginas. Em todas, existe um comentário ultra-ácido. Ou uma maldade, uma tirada de sarro genial. Palavrões aos montes. Pó entrando no nariz de alguém. Ou sexo. Algumas vezes, tudo isso junto (quem será o diretor corajoso que vai tentar passar a história para as telas?). É impossível parar de ler (mesmo sendo escrito em um inglês dos infernos, repleto de gírias e expressões londrinas que, não adianta, você não vai entender cem por cento. Não precisa. Tem ótimas sacadas a rodo para garantir diversão por horas). "Kill Your Friends" foi escolhido um dos melhores livros do ano passado pela revista britânica Word. Na contracapa do livro, James Dean Bradfield, vocalista e guitarrista da banda indie Manic Street Preachers, mostra que levou a sátira numa boa e "elogia" o Rob Fleming do Mal: "One of the evilest, most vicious, despicable characters ever. I couldn't put it down". Será que Joe Strummer faria o mesmo? No meio do livro, um policial se admira ao ver uma foto no escritório de Stelfox: o executivo abraçado ao vocalista do Clash. E pergunta: "Como ele é?". Stelfox responde para o tira: "Joe? He's a sweetheart." E para o leitor: "A washed-up cunt".
John Niven fala com conhecimento de causa: Steve Stelfox é baseado em tipos inescrupulosos que Niven conheceu quando trabalhava no departamento de marketing da finada London Records. Em artigo publicado no Times On Line, ele conta ter aprendido que gravadoras não gostam de música. Que, em reuniões de executivos da indústria da música, artistas são apelidados de "clowns", "losers". Que discos são chamados de "piece of shit". E que não se pode prever se uma banda vai ou não ser sucesso (segundo Niven, um respeitável executivo atirou pela janela do quarto andar o primeiro CD do White Stripes, sentenciando que ninguém compraria tamanha droga. O próprio Niven não botou fé no estouro do Coldplay, banda que, na opinião dele, era mais uma cópia de Radiohead).
Fleming ou Stelfox. Um, bom moço, uma enciclopédia de sapiência musical, o amigo gente boa que todo indie quer ter. O outro, mau caráter, conhecedor e admirador dos podres da indústria fonográfica, o sujeito politicamente incorreto que ridiculariza o mundinho indie e o mundão mainstream. Fleming, simpático, mas sonhador. Stelfox, safado, mas lúcido.
Leia os livros e escolha seu herói - ou anti-herói - preferido.
Eu fecho com o destemido, divertido e desbocado Steven Stelfox.

Friday, April 10, 2009

Mark Lanegan em São Paulo!!

AHHHHHHH, ele vem com o Dulli!!!! Valeu a pena mandar mensagem implorando, toda semana, hehehe!
No dia 21 desse mês sai a nova música dele com as Breeders, "The Last Time". E ele também tá fazendo música nova com o Slash (é, aquele). E preparando disco solo! Produtivo, o moço.


1 jul 2009
20:00
Bourbon Street
Sao Paolo BR
4 jul 2009
20:00
Teatro Oriente
Santiago CL
7 jul 2009
20:00
La Trastienda
Buenos Aires AR
11 jul 2009
20:00
Cactus Festival
Bruges BE
12 jul 2009
20:00
Paradiso
Amsterdam NL
13 jul 2009
20:00
Doornroosje
Nijmegen NL
15 jul 2009
20:00
Savoy Theatre
Düsseldorf DE
16 jul 2009
20:00
Stage Club
Hamburg DE
17 jul 2009
20:00
Vega
Copenhagen DK
19 jul 2009
20:00
Royal Festival Hall
London UK
20 jul 2009
20:00
Komedia
Brighton UK
23 jul 2009
20:00
York Theater
Sydney AU
24 jul 2009
20:00
Athenaeum
Melbourne AU
26 jul 2009
20:00
Splendour in the Grass
Byron Bay AU

Tuesday, April 07, 2009

Caravaggio, o pintor punk rocker




Itália, início do século XVII. Foragido da justiça e na mira de seus inimigos pessoais, nobres com sede de vingança. Procurado por homens especialmente designados pelo Papa com uma única missão: caçá-lo nas ruas imundas de Roma. Todas as noites, o sono agitado de Michelangelo Merisi - conhecido por Caravaggio – era vigiado. Por uma faca. O pintor, nascido em 1571 na cidade de Milão, não ousava adormecer desarmado.
Nova Iorque, 1978. No quarto número 100 do Hotel Chelsea, dividindo a mesma cama com a namorada Nancy Spungen, Sid Vicious – baixista do Sex Pistols – dormia rodeado por seringas de heroína. Um hábito. Um vício.
Caravaggio foi um arruaceiro. Rebelde, temperamental, impaciente, beberrão autodestrutivo. Sua presença em tavernas, bordéis, becos e feiras era sinônimo de confusão, de duelos, derramamento de sangue. Sua vida durou apenas trinta e nove anos. Trinta e nove anos de problemas com a lei: Caravaggio foi processado por agredir um garçom, por ofender e assediar mulheres. Por atirar pedras na polícia e portar espada pelas ruas. Foi preso diversas vezes. Feriu um carcereiro e escapou de uma fortaleza, prisão de segurança máxima. E matou um homem em Roma, por causa de aposta firmada durante um jogo de tênis.
Mas o boêmio e competitivo pintor era movido não somente por álcool e sangue fervendo nas veias. Havia um ideal. Caravaggio desejava provar que a Pintura poderia ser acessível, popular, incômoda, provocativa, instigante....e continuar lucrativa. E ainda ser reconhecida e respeitada como Arte.
Como Caravaggio, Sid Vicious foi um desordeiro. Também rebelde, temperamental. Viciado autodestrutivo, acumulou um número considerável de ocorrências policiais: usou uma corrente de moto para surrar um jornalista da revista inglesa New Music Express. Em um clube noturno, ameaçou Bob Harris, respeitado DJ da BBC. Agrediu o irmão da cantora Patti Smith. Vivia fora de controle devido aos efeitos da heroína. E foi preso, suspeito de ter assassinado Nancy no quarto do hotel. A moça foi esfaqueada na barriga e sangrou até morrer. Solto sob fiança, o baixista tentou o suicídio, foi socorrido e salvo. Em fevereiro de 1979, Sid morreu da maneira que Caravaggio temia morrer: dormindo. A combinação entre drogas e sono foi letal para o rapaz de vinte e um anos.
Se na Itália do século XVII Caravaggio foi o pioneiro de um novo movimento artístico - o Barroco - na Londres de 1975 Sid Vicious foi um dos representantes de um novo tipo de rock, que nasceu nos Estados Unidos. O punk. Sid aprendeu a tocar baixo sozinho, ouvindo Ramones, banda americana precursora do punk.
Caravaggio foi criticado por seus contemporâneos. Suas telas não reproduziam a Beleza, e sim o Feio, o Profano, o Mundano. Caravaggio não buscava inspiração nas feições dos quadros e esculturas clássicas para retratar santos, mártires e devotos. O pintor convocava ladrões, músicos de rua, ciganos, pequenos golpistas, prostitutas e os vestia como personagens bíblicos, madonas, cristãos fiéis ou pecadores arrependidos. Pintava os rostos contorcidos, os pés sujos, as mãos calejadas, os corpos castigados e a postura derrotada dos marginalizados e excluídos, transformando criminosos em protagonistas de passagens do Novo Testamento, putas em virgens, órfãos delinquentes em anjos. Na pintura de Caravaggio, os papéis principais eram sempre reservados aos desafortunados. Como nas letras das canções de Lou Reed. Pelas mãos do italiano, o submundo preto-e-branco ganhava cor, passava a adornar as paredes de burgueses endinheirados e os tetos das capelas.
O punk também foi criticado do mesmo modo que Caravaggio: repreendido por pecar pela falta de técnica, de decoro. O punk surgiu áspero e direto, igual a uma obra de Caravaggio, que pintava sem rascunhos, sem ensaios. O punk eliminou os excessos do rock progressivo dos anos 70, reduzindo melodias a poucos acordes, cortando solos de guitarra complicados e intermináveis, produzindo um som rápido, cru, sem floreios, com letras de cunho político. Chocou puritanos, moralistas, desagradou aos fãs do rock sinfônico. Caravaggio foi acusado de destruir a Pintura. O punk, de destruir o Rock.
Caravaggio também cortou excessos: em seus cenários, o fundo era constantemente raso, às vezes totalmente escuro. O foco de luz recaía sobre as expressões faciais dos ídolos, mulheres e homens pintados em estado de surpresa ou choque, de pesar ou sofrimento. As telas de Caravaggio se assemelham a fotografias de shows de rock: músicos e seus instrumentos destacados pela luz do palco contra um fundo negro.
Caravaggio é um artista moderno que foi obrigado a esperar que o mundo se tornasse tão moderno quanto ele. Foram necessários anos para que se aceitasse a ideia de que a Arte poderia se manifestar desacompanhada da beleza convencional, de que poderia ser estranha, inquietante, mas sem perder a honestidade. Visualmente, Caravaggio influenciou até mesmo o REM, banda americana dos anos 90. O REM explodiu graças ao hit “Losing My Religion”. O sucesso da música foi muito impulsionado pelo vídeo idealizado e filmado pelo diretor Tarsem Singh. O contraste entre claro e escuro, atores e atrizes encenando as telas “O Sepultamento de Cristo” e “A dúvida de São Tomás” embelezam a canção entoada por Michael Stipe. Em 1991, o vídeo concorreu a nove prêmios no MTV Music Awards. Ganhou seis, incluindo o de melhor vídeo do ano.
Caravaggio queria mostrar ao observador de suas obras que o angelical e o diabólico, o sexo, a violência e Deus poderiam facilmente, e até mesmo placidamente, coexistir na mesma cena dramática, no mesmo cavalete, na mesma tela. O compositor e cantor australiano Nick Cave incorporou a temática de Caravaggio em suas canções: letras que fundem o sagrado com o profano, o egoísmo criminoso com a culpa, a negação e a reconciliação com a fé. Cave se baseou na história de Lázaro para batizar seu novo álbum, lançado o ano passado - “Dig, Lazarus, Dig!!!” – e inspirar suas músicas. Segundo a Bíblia, Lázaro era um mendigo que, morto, foi ressuscitado por Jesus. Caravaggio montou essa cena, pintou o milagre. E escandalizou seus críticos e inimigos: usou um cadáver de verdade como modelo para Lázaro.

Contestador, visionário, depravado, direto. Brutal.

Caravaggio é puro rock’n roll.